29.11.04
Pessoa anti-Americano ?
Esta inusitada questão encontrei-a num blogue que costumo visitar, o Super Flumina, e motivou-me a escrever um comentário, que, por me ter saído algo extenso, não quis lá deixá-lo. Poderia, digamos assim, ser visto como um abuso de hospitalidade.
Como, modestamente, tive ocasião de escrever, já aqui no Alma Lusíada, a propósito de Fernando Pessoa, era este Poeta simultaneamente um louco e um génio, dotado de um extraordinário poder criativo, inventivo, uma autêntica máquina de pensar, incessantemente em produção.
No próximo dia 30, 3ªfeira, cumprem-se os 69 anos da sua morte, trágica, porque o levou ainda relativamente novo, com 47 anos de idade, em plena fase da sua produção literária amadurecida.
No ano que se avizinha, em 2005, certamente, aproveitarão o número redondo da efeméride,70, para uma vistosa comemoração oficial, com sempre gostam de fazer os seus numerosos e envaidecidos exegetas, alguns inequivocamente muito bons e sinceramente interessados em divulgar, se ainda é preciso, o nome do Poeta.
Sendo embora um génio, como disse, na minha modesta opinião, era-o de uma forma desequilibrada e nem tudo aquilo que saiu da sua pena tem o mesmo valor ou merece o mesmo entusiasmo. Até porque não reviu, para publicação, muito daquilo que ia deixando escrito.
Escrevia muita coisa de rajada, febrilmente, em noites atormentadas, em papéis e cadernos que depois atirava para o célebre baú. E sabemos como a revisão de um texto é fundamental, antes de dá-lo à publicação.
Quem sabe se ele estaria interessado em publicar muita coisa que agora aparece a lume, respigada do famigerado baú ? Pode até questionar-se o direito de outrem o fazer.
No que se refere ao seu hipotético anti-americanismo, não tenho sequer conhecimento de que Pessoa haja dedicado atenção a este tema, mas também não sou especialista em Pessoa, apesar de grande admirador da sua obra, que a tenho comigo, na sua quase totalidade, embora ainda não completamente lida.
Mas assinalo que Pessoa foi educado, na infância e adolescência, na África do Sul, colónia britânica, entre súbditos de Sua Majestade, em quem os preconceitos anti-americanos provavelmente se fariam notar.
Nas camadas cultas inglesas, ainda mais entre as aristocráticas, era comum, no final do século xix, considerarem os americanos pouco mais que seres boçais, obcecados com o dinheiro dos negócios, sôfregos de reconhecimento social, que aquele então ainda não garantia, pelo menos não tanto como hoje.
Esta percepção é bem patente num filme chamado "Os Despojos do Dia/The Remains of the Day", que correu por cá há uns anos, aliás, com excelentes interpretações de Anthony Hopkins e Emma Thompson.
Nele se confrontam as visões da política mundial da aristocracia britânica, nos anos vinte e trinta, creio, do século passado, muito baseada ainda em conceitos de honra, cavalheirismo, respeito de códigos, etc., coisas que estavam já em franco desaparecimento, em contraste com a visão dos EUA, potência em ascensão desde o fim da guerra de 1914-1918, com uma noção da política internacional mais pragmática, realista, fundada nos interesses e na capacidade de os afirmar e defender.
Para os aristocratas britânicos, os americanos eram ainda uma Nação demasiado jovem, com uma população muito heteróclita, carecida de pergaminhos culturais, demasiado ocupados com a sordidez dos negócios, sem tempo nem disposição para o apreço dos elevados ideais da Moral e da Arte, nem igualmente tinham a educação indispensável para a fruição dos bens normalmente exigidos pelos espíritos cultivados, apesar de existirem, já então, na América, alguns núcleos de cultura europeia fortemente enraizados, em torno de certos Colégios e Universidades da costa leste.
Talvez radique nesta distante influência o hipotético e remoto discreto anti-americanismo de Pessoa que o texto citado, «O Provincianismo Português», supostamente permite entrever.
Na Europa, em geral, e na França em particular, houve sempre alguma condescendência cultural em relação aos americanos, bem notória em De Gaulle, por exemplo, e que ainda hoje tem os seus seguidores, sem falar da tradicional animosidade da Esquerda francesa, visceralmente anti-americana.
Este sentimento acentuou-se ainda mais com o vincado alinhamento político do tempo da guerra fria, num atitude, diga-se mesmo, que até poderia ser taxada, da parte dos americanos, de soez ingratidão, pelo sangue que estes verteram, em solo francês, durante as duas guerras mundiais.
Fora destas considerações, no entanto, é óbvio para qualquer um que, a par das grandes realizações americanas, a sociedade que lhes subjaz está, no presente, toda ela eivada de profundas contradições e conterá, porventura, no seu seio germes activos de auto-destruição que não cessam de se desenvolver, desde o culto da violência desbragada, que o cinema infrenemente glorifica, aos fracturantes conflitos rácicos e do multi-culturalismo que se tornam cada vez mais difíceis de conter e harmonizar.
Onde pára hoje o ideal da América, Pátria da Liberdade e da Abundância/Land of Freedom and Plenty, que tanto atraía os emigrantes de todo o mundo, que avidamente a demandavam, até há coisa de 30 ou 40 anos ?
Bom, com isto desviei-me um tanto do tema e não sei se consegui esclarecer a questão inicial : o suposto anti-americanismo de Pessoa, que, repito, apesar do meu estrito amadorismo pessoano, não me parece um tópico que tenha relevo significativo, no vasto campo de elucubração deste nosso extraordinário e infeliz Poeta.
Mais uma vez, termino, prometendo regressar a Pessoa, meu tão dilecto tema.
Repetita iuvant ( As coisa repetidas agradam )
Repetitio est mater scientiae ( A repetição é a mãe da Ciência )
AV_ Lisboa, 28 de Novembro de 2004
Como, modestamente, tive ocasião de escrever, já aqui no Alma Lusíada, a propósito de Fernando Pessoa, era este Poeta simultaneamente um louco e um génio, dotado de um extraordinário poder criativo, inventivo, uma autêntica máquina de pensar, incessantemente em produção.
No próximo dia 30, 3ªfeira, cumprem-se os 69 anos da sua morte, trágica, porque o levou ainda relativamente novo, com 47 anos de idade, em plena fase da sua produção literária amadurecida.
No ano que se avizinha, em 2005, certamente, aproveitarão o número redondo da efeméride,70, para uma vistosa comemoração oficial, com sempre gostam de fazer os seus numerosos e envaidecidos exegetas, alguns inequivocamente muito bons e sinceramente interessados em divulgar, se ainda é preciso, o nome do Poeta.
Sendo embora um génio, como disse, na minha modesta opinião, era-o de uma forma desequilibrada e nem tudo aquilo que saiu da sua pena tem o mesmo valor ou merece o mesmo entusiasmo. Até porque não reviu, para publicação, muito daquilo que ia deixando escrito.
Escrevia muita coisa de rajada, febrilmente, em noites atormentadas, em papéis e cadernos que depois atirava para o célebre baú. E sabemos como a revisão de um texto é fundamental, antes de dá-lo à publicação.
Quem sabe se ele estaria interessado em publicar muita coisa que agora aparece a lume, respigada do famigerado baú ? Pode até questionar-se o direito de outrem o fazer.
No que se refere ao seu hipotético anti-americanismo, não tenho sequer conhecimento de que Pessoa haja dedicado atenção a este tema, mas também não sou especialista em Pessoa, apesar de grande admirador da sua obra, que a tenho comigo, na sua quase totalidade, embora ainda não completamente lida.
Mas assinalo que Pessoa foi educado, na infância e adolescência, na África do Sul, colónia britânica, entre súbditos de Sua Majestade, em quem os preconceitos anti-americanos provavelmente se fariam notar.
Nas camadas cultas inglesas, ainda mais entre as aristocráticas, era comum, no final do século xix, considerarem os americanos pouco mais que seres boçais, obcecados com o dinheiro dos negócios, sôfregos de reconhecimento social, que aquele então ainda não garantia, pelo menos não tanto como hoje.
Esta percepção é bem patente num filme chamado "Os Despojos do Dia/The Remains of the Day", que correu por cá há uns anos, aliás, com excelentes interpretações de Anthony Hopkins e Emma Thompson.
Nele se confrontam as visões da política mundial da aristocracia britânica, nos anos vinte e trinta, creio, do século passado, muito baseada ainda em conceitos de honra, cavalheirismo, respeito de códigos, etc., coisas que estavam já em franco desaparecimento, em contraste com a visão dos EUA, potência em ascensão desde o fim da guerra de 1914-1918, com uma noção da política internacional mais pragmática, realista, fundada nos interesses e na capacidade de os afirmar e defender.
Para os aristocratas britânicos, os americanos eram ainda uma Nação demasiado jovem, com uma população muito heteróclita, carecida de pergaminhos culturais, demasiado ocupados com a sordidez dos negócios, sem tempo nem disposição para o apreço dos elevados ideais da Moral e da Arte, nem igualmente tinham a educação indispensável para a fruição dos bens normalmente exigidos pelos espíritos cultivados, apesar de existirem, já então, na América, alguns núcleos de cultura europeia fortemente enraizados, em torno de certos Colégios e Universidades da costa leste.
Talvez radique nesta distante influência o hipotético e remoto discreto anti-americanismo de Pessoa que o texto citado, «O Provincianismo Português», supostamente permite entrever.
Na Europa, em geral, e na França em particular, houve sempre alguma condescendência cultural em relação aos americanos, bem notória em De Gaulle, por exemplo, e que ainda hoje tem os seus seguidores, sem falar da tradicional animosidade da Esquerda francesa, visceralmente anti-americana.
Este sentimento acentuou-se ainda mais com o vincado alinhamento político do tempo da guerra fria, num atitude, diga-se mesmo, que até poderia ser taxada, da parte dos americanos, de soez ingratidão, pelo sangue que estes verteram, em solo francês, durante as duas guerras mundiais.
Fora destas considerações, no entanto, é óbvio para qualquer um que, a par das grandes realizações americanas, a sociedade que lhes subjaz está, no presente, toda ela eivada de profundas contradições e conterá, porventura, no seu seio germes activos de auto-destruição que não cessam de se desenvolver, desde o culto da violência desbragada, que o cinema infrenemente glorifica, aos fracturantes conflitos rácicos e do multi-culturalismo que se tornam cada vez mais difíceis de conter e harmonizar.
Onde pára hoje o ideal da América, Pátria da Liberdade e da Abundância/Land of Freedom and Plenty, que tanto atraía os emigrantes de todo o mundo, que avidamente a demandavam, até há coisa de 30 ou 40 anos ?
Bom, com isto desviei-me um tanto do tema e não sei se consegui esclarecer a questão inicial : o suposto anti-americanismo de Pessoa, que, repito, apesar do meu estrito amadorismo pessoano, não me parece um tópico que tenha relevo significativo, no vasto campo de elucubração deste nosso extraordinário e infeliz Poeta.
Mais uma vez, termino, prometendo regressar a Pessoa, meu tão dilecto tema.
Repetita iuvant ( As coisa repetidas agradam )
Repetitio est mater scientiae ( A repetição é a mãe da Ciência )
AV_ Lisboa, 28 de Novembro de 2004
Comments:
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Confesso que me seduziu "Fernando Pessoa, era este Poeta simultaneamente um louco e um génio, dotado de um extraordinário poder criativo, inventivo, uma autêntica máquina de pensar, incessantemente em produção".
Obrigado pela sua visita ao meu cantinho que tem algo de apressado. Vou seguir a sua dica: rever bem antes de algum dia ser publicado por outras vias. O meu baú é o servidor do SAPO. Passar para papel será uma utopia? Cumprimentos da Azoriana
Obrigado pela sua visita ao meu cantinho que tem algo de apressado. Vou seguir a sua dica: rever bem antes de algum dia ser publicado por outras vias. O meu baú é o servidor do SAPO. Passar para papel será uma utopia? Cumprimentos da Azoriana
Desculpe-me por me intrometer neste tema, mas muito pouco deve o Viriato saber e ter aprendido sobre os Açores, para no "Indespensáveis" escrever "Apenas me intrigaram as referências à FLA que julgava extinta, por absurda. E muito bem respondeu o JNAS quando lhe disse que "não sei se a FLA ainda existe mas a alma Açoriana essa sim perdura."
Ponham-se a pau portugueses, como o senhor, que tão pouco aprendem e depressa esquecem a força da alma Açoriana...
TóZé
aja@meloabreu.pt
Ponham-se a pau portugueses, como o senhor, que tão pouco aprendem e depressa esquecem a força da alma Açoriana...
TóZé
aja@meloabreu.pt
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